A evolução do conceito de sustentabilidade

February 22, 2017

A formação do conceito de sustentabilidade remonta ao final do século 18, quando em 1798, Thomas Malthus, um economista, estatístico, pastor e demógrafo inglês publica a série de ideias que veio a se denominar Teoria Populacional Malthusiana.

 

O estudioso anglicano, após observar o crescimento populacional entre os anos de 1650 e 1850, observa que as melhorias na qualidade de vida, proporcionadas pelo aumento da produção de alimentos, saneamento básico, desenvolvimento da medicina no combate a doenças e enfermidades dentre outras melhorias urbanas daquele período, desequilibraram a correlação com os meios de subsistência.

 

Sendo assim, segundo Malthus (1809) a população cresce em progressão geométrica, enquanto que os meios de subsistência crescem em progressão aritmética. Portanto, o autor concluí que, caso não fossem adotados métodos para limitar o crescimento da população a sociedade estaria em rumo ao colapso.

Tal constructo que posteriormente veio a se chamar de Teoria Populacional Malthusiana, foi inclusive reafirmado por Meadows (1972) quando afirma que o desenvolvimento econômico da forma como ocorria não seria suportado pelo planeta.

 

Entretanto, após inúmeras conferências internacionais, e na tentativa de buscar uma via comum entre o desenvolvimento a qualquer custo e o desenvolvimento zero, surgiu as primeiras inferências acerca do conceito moderno de sustentabilidade, que foram depois compiladas e sintetizadas por Elkington (1994).

 

Nesse ínterim é importante destacar a atuação das Organizações das Nações Unidas, e principalmente, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente, a qual publicou em 1987, uma série de medidas, diretrizes e propostas, antecedentes a Agenda 21. Tal documento, intitulado de Relatório Brundtland ou também como “Nosso Futuro Comum” foi um dos primeiros a reformular a tese de desenvolvimento zero, para o que chamamos de desenvolvimento sustentável.

 

Destacamos aqui a frase que sintetiza a construção do conceito de desenvolvimento sustentável.

 

"O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades"

 

Chama atenção nesse conceito o uso da palavra necessidade, o que remonta a sua origem nas teorias de limite propostas inicialmente por Malthus. É impossível definir com clareza qual o conceito e abrangência da palavra necessidade, uma vez que, sua subjetivação é oriunda não somente de fatores econômicos, mas sociais e culturais. Para uma tribo indígena isolada na Amazônia, o conceito de necessidade é radicalmente diferente de um cidadão de Nova York, assim como, um indiano classe média, tem necessidades claramente diferentes de um membro da elite sorocabana.

 

A definição de necessidades foi muito bem descrita e entendida por Maslow, e vale a pena a leitura da sua Teoria da Motivação Humana, que resultou na definição da hierarquia das necessidades, que será tratado em outra publicação.

 

É possível perceber que uma evolução significativa do cenário visualizado por Meadows (1972) frente a abordagem da sustentabilidade. Segundo Elkington (1994) a sustentabilidade deve ser vista de forma tridimensional, ou seja, não se condena um modelo de desenvolvimento, ou a atividade em si, mas sim a forma como é feita.

 

Elkington (1994) apresentou no célebre livro Canibais com garfo e faca, o famoso triple bottom line, ou como chamamos em português, o tripé da sustentabilidade. Diferente do conceito inicial de desenvolvimento sustentável, ainda muito focado na restrição e limitação, como é visto inclusive na utilização da palavra necessidade. O conceito de Elkington (1994) apresenta uma integração maior com as corporações, traduzindo o conceito para um novo modelo gerencial a ser adotado pelas empresas.

 

O que chama atenção no tripé da sustentabilidade original, é sua menção clara e explícita ao lucro, mostrando que as organizações somente serão capazes de alcançar a sustentabilidade, desde que tenham atenção aos preceitos de performance nas três pontas. Tal forma de incentivo encontrou muito mais aderência nas atividades empresariais, do que o velho conceito baseado em necessidades.

 

Entretanto, um dos grandes desafios da sustentabilidade como modelo gerencial, estava e ainda está na mensuração, ou seja, não era trabalhado até então como um indicador, e sim apenas como um suporte de requisitos legais dentro das organizações.

 

Segundo Callado (2010) a sustentabilidade ainda é vista por alguns como um conceito ecológico distante da realidade das organizações, que somente o adotam a fim de se atender aos princípios de responsabilidade social, legal e de governança.

 

Entretanto, segundo Callado (2010) é possível perceber que o conceito relacionado a sustentabilidade, pode ser entendido também como uma nova possibilidade de abordagem gerencial e comercial, uma vez que, promove a responsabilidade social, reduz o consumo de recursos naturais, preserva a integridade do planeta e ainda assim mantém a rentabilidade econômico-financeira do empreendimento.

 

Buscando compreender melhor a correlação entre meio ambiente e desenvolvimento econômico, propagado pela sustentabilidade, Alberton e Costa Jr (2007) avaliaram a existência do vínculo entre desempenho financeiro e a certificação ISO 14.001, considerada como uma das expressões de sustentabilidade empresarial.

 

Para Alberton e Costa Jr (2007), a relação não se mostra de fácil mensuração e tampouco pode ser simplesmente associada a desempenho financeiro, estando muito mais próxima de proporcionar a ganhos operacionais e produtivos. Ainda assim, os autores identificaram que as empresas avaliadas no estudo, apresentaram melhoria nos indicadores financeiros após a certificação ambiental.

 

Nos estudos conduzidos por Callado (2010), figura a tentativa de desenvolver indicadores que realizem de maneira precisa a mensuração das dimensões da sustentabilidade. Para Callado (2010) os indicadores podem ser considerados como ferramentas fundamentais no acompanhamento de variáveis de interesse da empresa, além de possibilitar o planejamento de ações e melhorias de desempenho.

 

No que tange aos indicadores de sustentabilidade, Veleva (2003) ressalta que a arquitetura associada é simples, visto que, buscam apenas identificar de maneira objetiva a posição da organização frente a tridimensionalidade da sustentabilidade.

 

Complementando ao descrito, Lamborghini e Sukoharsono (2006) apresentam o entendimento de que indicadores de sustentabilidade são os modos pelos quais a organização contribui ou pretende contribuir para a melhoria das suas dimensões, econômicas, ambientais e sociais, no âmbito dos três níveis, local, regional e global.

 

Apesar da importância da utilização dos indicadores, Callado (2010), ressalta que a maioria das organizações os utilizam apenas de forma quantitativa, reduzindo assim o potencial de análise e descrição. Portanto, urge a utilização de indicadores também de caráter qualitativo, com visão mais holística de todo o processo, bem como, de suas causas e efeitos.

 

Uma série de estudos foram conduzidos acerca da formulação de indicadores de sustentabilidade, sintetizados por Callado (2010), face a suas perspectivas e modelos de mensuração. O próprio Callado (2010), revisita uma extensa abordagem que remonta desde os primórdios da sustentabilidade até os dias atuais, para a composição e montagem da sua linha de indicadores.

 

Dessa forma, conclui-se que a evolução do conceito de sustentabilidade está associada a percepção da necessidade de estabelecimento de limites, aos quais inicialmente foram concebidos para o contexto macroeconômico. Desde Malthus em 1809 até Estocolmo em 1972, o cerne da questão era associado principalmente ao ambiente macro, destacado como o desenvolvimento econômico das nações.

 

Impossível dissociar o desenvolvimento econômico das nações a atividade econômica empresarial, visto que, o primeiro é tido como uma composição, um somatório das unidades referentes ao segundo. Ainda assim, o ambiente de discussão se dava de forma genérica, buscando soluções em termos de políticas públicas e não especificamente no ambiente empresarial.

 

Porém a abordagem proposta por Elkington (1994) é resultante de um constructo que se mostra como um dos pilares de sustentação da teoria moderna da sustentabilidade. Conhecido pelo dito “agir localmente pensando globalmente”, demonstra-se que as políticas macroeconômicas de governo, não podem estar desalinhadas ou dessincronizadas do ambiente empresarial, visto que um é resultante do outro.

 

A partir de tal construção é que a abordagem de Elkington (1994) abaixa o nível de atuação da sustentabilidade das nações, para o ambiente empresarial, apresentando assim a necessidade de que os conceitos e diretrizes da sustentabilidade sejam seguidos dentro do ambiente corporativo.

 

Desse modo, a construção da sustentabilidade ganhou um novo impulso, sendo discutida amplamente por grandes teóricos da administração, como Kotler, Poter dentre outros, que identificaram nas práticas de sustentabilidade um novo paradigma da administração.

 

Consequentemente a sustentabilidade passou a ocupar um espaço significativo para o mercado de capitais, que passou a enxerga-la como um instrumento de diferenciação, criando regras, regulamentos, limites e listagens específicas. Aproximando assim a abordagem da sustentabilidade com a governança corporativa.

 

 

Frederico Campos Viana

Mestre em Gestão Estratégica das Organizações

Especialista em Avaliação de Impactos Ambientais e Recuperação de Áreas Degradadas

Engenheiro Ambiental

 

 

 

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